quarta-feira, 19 de abril de 2017

JOÃO 15:1-7 O RAMO CORTADO E LANÇADO NO FOGO

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam.
Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito.” (João 15:1-7)


Diferente do que alguns possam imaginar, este é um tema dos mais vitais para a nossa teologia de um modo geral. Infelizmente desde o século XVI o surgimento de uma determinada tradição soteriológica e sua posterior contraposição acabaram gerando um cisma na cristandade protestante, que se arrastou pelos séculos, adormeceu em alguns instantes, mas agora com as facilidades do mundo tecnológico recrudesceram, gerando ataques mútuos e conflitos infindos pelas redes sociais. Seria mais fácil lidarmos com a questão se fôssemos mais humildes e sinceros ante a clareza presente na Escritura e se jamais houvéssemos nos envolvido com bandeiras ideológicas, que os obrigam a fazer malabarismos com a Bíblia apenas para dar satisfações aos partidarismos teológicos advogados. Louvo a Deus todos os dias por nunca ter me deixado cair nessa teia diabólica.

Muito antes de saber o que é calvinismo ou arminianismo – e de tomar a decisão de não me filiar a nenhum dos partidos e questão – eu já enxergava com clareza na Bíblia o livre arbítrio e a queda da graça. À proporção que aprofundava meus estudos, com sinceridade e singeleza, muitos contextos, como este que estudamos agora, iam se somando e consolidando uma percepção que jamais me abandonou: A de que é possível o cristão perder a sua salvação – e mesmo debaixo de todo bombardeio contrário que recebi nas várias instituições de ensino teológico porque passei, jamais abandonei esta certeza.
Mas para esclarecer minhas convicções, primeiramente os amados me permitam um breve passeio exegético em cada um destes versículos. E eu entendo que isto requer um olhar nos originais gregos. Vejamos então:

15.1 — Videira. Essa nomenclatura pode significar uma simples videira ou a vinha toda. Seja como for, a imagem aqui dá uma ideia de total dependência. Israel era a videira plantada por Deus, mas não conseguiu dar bons frutos (Is 5.1-7; Jr 2.19-21). Jesus, com Seus “ramos”, todos os que creem nele, “enxertados” nele, é a videira verdadeira. Assim como todo o povo de Israel descende dos seus patriarcas, a nova geração do povo de Deus é apresentada aqui como descendência de Cristo, organicamente ligada a Ele, como ramos que nascem da videira. Esse é o cumprimento do Salmo 80, em que o filho do homem (SI 80.17) é a videira plantada por Deus.

15.2,3 — Toda vara está ligada a Cristo. Paulo em suas cartas usa as palavras “em Cristo” para falar do direito legal dos cristãos e da sua posição na família de Deus, algo que lhes é dado pela graça. A ênfase da expressão “em mim” nesse texto, contudo, está na comunhão profunda e permanente. O propósito de Jesus era fazer com que Seus discípulos passassem de Seus servos para amigos (v. 13-15). Mas isso envolvia um processo de disciplina relacionado aos Seus mandamentos.

Não dá fruto. Nenhuma árvore dá fruto de uma hora para outra; o fruto é resultado de um processo. O mesmo acontece com os cristãos. Aqueles que não dão frutos o lavrador os tira (gr. airo), o que tem o mesmo significado de ser levantado. Quando termina o inverno e chega o tempo de plantar, o lavrador percorre a vinha levantando os ramos do solo, onde eles ficaram no inverno, e prendendo-os em estacas, para que eles sejam aquecidos pelo sol. O calor faz com que os ramos brotem.  Além disso, ao tirar os ramos do solo, o lavrador evita que eles criem raízes na superfície, onde não há umidade suficiente para produzir nada além de uvas duras e azedas. Quando o ramo é levantado da terra suja, entretanto, ele é obrigado a procurar umidade nas raízes mais profundas da videira, produzindo assim frutos saborosos.

Essa expressão “Tira” (gr. kathairo) significa limpa. Quando há fruto na videira, o lavrador a deixa limpa de pragas e doenças. A purificação de toda colheita espiritual é feita pela Palavra (v. 3). O que Jesus diz aqui são as mesmas palavras ditas aos Seus discípulos no cenáculo para confortá-los (João 14). São palavras que fariam com que eles não fossem mais discípulos medíocres e covardes e se tornassem poderosos soldados de Cristo. Mas esse é um processo que se daria com o passar do tempo. O verbo usado nesse versículo também significa limpar. Portanto, o lavrador levanta os ramos sem fruto e limpa aqueles que dão frutos, para que frutifiquem ainda mais. A questão principal aqui não é a união, mas a comunhão que produz frutos.

 15.4 — Para que o ramo dê mais frutos, ele tem de estar na videira, ou seja, ficar, fazer parte, permanecer, criar raízes. E a maneira como permanecemos em Cristo é obedecendo (Jo 15.10; 1 Jo 3.24). O cristão que obedece à Palavra de Deus com amor dá muitos frutos. Esse texto deixa muito claro que é possível um cristão verdadeiro não permanecer, ou seja desistir, pois ele exige que haja o compromisso da permanência, da perseverança.

15.5 — Nada podereis fazer. Sem Jesus, o cristão não consegue fazer nada que tenha valor espiritual e que permaneça.

15.6 — Se alguém não estiver em mim [em Cristo], sofrerá diversas consequências: (1) será lançado fora, o que significa perda de comunhão; (2) secará, o que significa perda de vitalidade; (3) será lançado no fogo, o que significa perda da salvação e não apenas de uma recompensa. O fogo aqui tem um sentido figurado e simboliza duas coisas: a ardente prova (1 Pe 1.7; 4.12) e o juízo (1 Co 3.11-15). Não permanecer em Cristo traz consequências espirituais desastrosas e eternas. Quem desiste de Cristo fica de fora e perde a coroa que possuía. Isto aqui é uma clara referência à apostasia, que gera perda de salvação.
  
15.7 — Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós. Permanecer em Cristo traz seis resultados: resposta à oração (v. 7); frutos (v. 8); cumprimento de propósito, portanto o Pai é glorificado (v. 8); amor (v. 9,10); plenitude de alegria (v. 11); evangelismo eficaz (Jo 13.35; 15.8). Permanecer em Cristo significa ter comunhão pessoal com Ele. Permanecer na Sua Palavra envolve obediência. Conhecer o Salvador gera em nós fé, que nos leva a uma atitude óbvia: obedecer-lhe por amor. O apóstolo Paulo fala sobre esse processo em Fp 3:10. Quero conhecer a Cristo, ao poder da sua ressurreição e à participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte”
.
Cristo estava ensinando por analogia que o fato de um dia fazer parte de Seu corpo não garante a salvação final, pois é necessária a perseverança até o fim. Da mesma forma, Ele ensina que é possível que alguém que uma vez foi salvo não persevere e não confirme esta salvação. Alegar que tais pessoas descritas nesta analogia não eram salvas é inútil, pois Jesus disse que elas estavam nele (v.2). Se elas estavam nele, faziam parte do Seu corpo, a Igreja invisível eleita para a salvação e espalhada em todo o mundo. Outro detalhe que nos mostra que essas pessoas eram salvas é o fato de já estarem limpas (v.3). Sabemos que a santificação é um processo de purificação que sucede a regeneração. Pessoas são salvas por Deus, regeneradas e, então, santificadas. Se essas pessoas já estavam limpas pela Palavra de Cristo, é porque elas já haviam sido regeneradas e estavam, consequentemente, salvas, naquele dado momento.

Mais uma coisa que nos ajuda a concluir que tais “ramos” estavam salvos era que eles teriam que permanecer em Cristo. Se eles tinham que “permanecer”, é porque já estavam nele. Da mesma forma que não faz sentido dizer para alguém “permanecer em casa” se não está em casa, não haveria lógica dizer para alguém “permanecer em Cristo” se já não está em Cristo. E, se elas estavam em Cristo, faziam parte do Corpo e eram genuinamente cristãs. Cristãos nominais não fazem parte do Corpo nem estão em Cristo, embora frequentem uma igreja física. O texto está claramente tratando de cristãos de fato. Fala de pessoas salvas e não de falsos cristãos, como alguns alegam.
Por fim, o último ponto que nos leva a crer que Jesus estava falando de pessoas já salvas é que Ele dirigia aquelas palavras, em primeiro lugar, aos seus próprios discípulos, que ali estavam. Estavam ali Cristo e onze apóstolos, pois Judas já havia deixado aquele lugar para ir vender Jesus aos sacerdotes (Jo.13:30). Depois que Judas saiu, Jesus continuou seu discurso aos onze discípulos e, referindo-se a eles, disse as palavras que lemos no capítulo 15. Partindo da premissa óbvia de que aqueles onze discípulos eram verdadeiros crentes e pessoas já salvas, é lógico que aquilo se aplica a pessoas regeneradas. Que aquelas palavras foram ditas a pessoas já salvas, isso é indiscutível. Mas será mesmo que Cristo estava abrindo uma possibilidade de apostasia e de perda de salvação para elas? Se analisarmos o mesmo contexto só poderemos afirmar que a resposta é sim. Ele diz que aqueles ramos poderiam ser cortados (Jo.15:2) e que poderiam não permanecer na videira (v.4), que por sinal era Ele mesmo. Deixando de fazer parte do Corpo, deixariam de ser salvos, pois apenas serão salvos os que estão em Cristo, e não fora dEle.

Em franco desespero e insano malabarismo, alguns tentam sustentar que o texto fala em perda apenas das recompensas no Tribunal de Cristo e não em perda de salvação, mas essa versão não se sustenta em comparação com todos os aspectos do contexto já analisados. O verso 6 mostra com ainda mais clareza que este “cortar” não significa apenas a “perda da recompensa”, mas a própria perda da salvação, com a consequente condenação ao inferno. Ele diz: “Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados” (João 15:6) Estes ramos, que estavam em Cristo mas não permaneceram nele, serão cortados, jogados fora, apanhados, lançados ao fogo e queimados, que é exatamente a mesma linguagem empregada aos ímpios que serão condenados (Mt.13:40; Mt.7:19; Mc.9:44; Ap.20:14).

Portanto, temos aqui o retrato perfeito de pessoas que estavam salvas em Cristo, e que, mesmo assim, poderiam ser excluídas do Corpo, lançadas ao fogo e queimadas.
Aquelas palavras estavam sendo aplicadas primeiramente aos onze discípulos que ali estavam, mas, logicamente, também se aplicam por extensão a qualquer cristão que hoje esteja em Cristo. A mensagem transmitida era muito clara: não basta apenas estar em Cristo, é preciso ser fiel, cumprir seus mandamentos, permanecer nele até o fim, e a possibilidade da apostasia (ser cortado e lançado ao fogo) era e continua sendo algo real e existente.
Eu sinceramente acredito que a salvação é uma obra da graça de Deus livre e independente das obras dos crentes. No entanto, o homem precisa cumprir com algumas condições para perseverar nela. A força de textos bíblicos como João 15:1-7 me impedem de pensar diferente.  Também, acredito ser mais honesto, intelectualmente falando, conciliar os textos bíblicos que tratam da segurança e proteção divina dos crentes com a proposição da responsabilidade humana quanto à conservação de sua salvação, do que afirmar que aqueles a quem a Bíblia chama de crentes que se desviaram, ou que podem desviar, não são, ou não foram, pessoas que realmente experimentaram a regeneração. Talvez, seja melhor para nossos irmãos calvinistas falarem de pseudo cristãos nestas passagens, porque isso os ajuda a manter “vivas” suas doutrinas da eleição e reprovação como admitidas por eles. Porém, isso não é ser fiel às Escrituras. Ser fiel às Escrituras é dar vazão a tudo o que ela diz sobre um determinado assunto segundo a maneira como ela o trata e não de acordo como queremos que ela nos diga.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por seu comentário. Breve iremos analisá-lo com todo carinho. Que Deus lhe abençoe!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...